É uma constante em muitos festivais. Entra edição, sai edição, e o Lollapalooza Brasil continua tendo perrengues com lama. Já virou quase uma tradição do evento, que não à toa foi popularmente apelidado de “Lamapalooza“. Mas o problema está longe de ser uma exclusividade do Lolla. Festivais como The Town e Rock in Rio também têm histórico de lamaçal.
Mas será possível driblar a lama em um festival? Existem maneiras de impedi-la ou evitá-la? O que os organizadores desse tipo de evento podem fazer? Como o público age diante da lama? Duma forma ou de outra, a lama parece ser participante de alguns dos grandes momentos da música em todo lugar do mundo, mesmo que para alguns seja um senhor inconveniente.
Vamos lá, é primeiro dizer que muito mais do que um amontoado de pistas para carros e motocicletas, o Autódromo de Interlagos se tornou o point dos festivais de música que rolaram em São Paulo. Só lá acontecem Lollapalooza, Primavera Sound e The Town. Dez anos atrás, no entanto, o espaço estava bem longe de ser o lar queridinho dos festivais.
Por exemplo, o Lolla chegou ao Brasil em 2012 e suas duas primeiras edições rolaram no Jockey Club, ambiente associado a eventos de hipismo. Nos dois anos, o festival foi tomado por muita lama. Muita mesmo. Para se ter uma ideia do lamaçal que costuma acontecer no Jockey: Em 2015, o megafestival Brahma Valley também aconteceu ali, e parte do público ficou chafurdada de lama até pelo menos o meio da canela.
Todos esses episódios — somados a outros problemas — levaram ao fim da realização de festivais de música no Jockey. E sim, a lama continuou no Autódromo, mas de uma forma bem menos intensa. Isso porque a escolha do local interfere diretamente na questão. A geomorfologia muda de lugar para lugar e, com isso, a lama também fica diferente.
Outro ponto importante é o tipo de alteração do solo da região, que impacta na terra molhada. Onde há terra, haverá lama, e no caso de festivais de música, a maioria acontece em locais com gramado. Será possível, então, driblar lamaçais em ambientes como Interlagos, Ibirapuera, Jockey e Parque Olímpico (RJ)?
Para conter a lama em festivais, é comum o uso de materiais como brita, placas e tapume. Há também projetos de engenharia específicos para cada espaço, planejados para evitar esse e outros problemas. Em caso de festivais que duram dias, também é possível diminuir a lama de uma data para a outra a partir de processos como a remoção dos pontos de maior inundação, inclusão de porções de barro seco e drenagem de água parada.
Impossibilitar o surgimento da lama em si, no entanto, é uma tarefa bem mais complexa. A começar, pelo fato que o deslocamento do público entre os palcos afeta o solo em questão que, molhado, se torna naturalmente mais adepto ao deslizamento. E outro fator importante nessa discussão é o clima. Para evitar lama, o ideal seria realizar festivais em épocas com menor chance de chuva na região do evento.
E não dá cravar que a chuva está fora de cogitação, que dirá, então, em um mundo cada vez mais impactado pelos avanços das mudanças climáticas, que causam tempestades fora de época, por exemplo.
No entanto, apesar da decepção que causa em boa parte do público, a lama não é exatamente uma vilã dos festivais. Na verdade, existe até um glamour por trás dos sapatos encardidos dos fãs. Em 2015, a loja oficial do Rock in Rio pôs à venda um souvenir com porções de lama da primeira edição do festival, ocorrida em 1985. Cada potinho lamacento custava R$ 185.
Considerada um item de colecionador, a lama do souvenir foi retirada da obra da Vila dos Atletas dos Jogos Olímpicos de 2016, no terreno que abrigou a primeira cidade do Rock. Lá foram encontrados pedaços de tênis, pulseiras e roupas da época do primeiro Rock in Rio. Em 2022, o festival carioca também colocou um enorme tênis sujo de lama no caminho entre os palcos. O point virou cenário de muitas selfies.
Em qualquer peça de roupa ou acessório, a mancha de lama pressupõe que seu dono foi até um lugar com gramado. Dá uma ideia de “rolê vivido”. E na era das redes sociais, isso vira posts — ou mais especificamente um símbolo de rolezeiro.
Antes mesmo das chegadas das redes, porém, a lama já tinha seu brilho. Festival de música mais emblemático da história, o Woodstock (1969) teve vários de seus frequentadores “nadando” na terra molhada. Pensada ou não, a brincadeira se encaixava em certa medida com os valores pregados pelo Woodstock, que celebrava a contracultura. Se jogar na lama não deixa de ser algo que debocha das normas sociais de comportamento.
Agora, quem deseja se livrar da sujeira lamacenta deve limpar a peça quanto antes. É o que recomenda o diretor-executivo de uma marca de calçados, Eduardo Abichequer. “A lama e sujeiras secas podem ser mais difíceis de remover depois. Levar um pano úmido para limpar as áreas mais críticas durante o festival pode ser útil.”
Para isso, basta seguir essas instruções:
- Usar escova de dentes velha com água morna e sabão neutro;
- Aplicar bicarbonato de sódio para remover manchas e odores;
- Usar com moderação produtos químicos, como detergentes neutros ou aqueles específicos para tênis;
- Fazer um teste com o produto em uma área discreta do calçado antes de aplicá-lo por completo;
- Evitar água sanitária, porque pode danificar o material do tênis, desbotar a cor ou até comprometer a durabilidade;
- Para tênis brancos, a alternativa mais segura é usar detergente neutro, bicarbonato de sódio ou vinagre diluído em água.